| a |
escuridão cobriu a cidade de ShadowValley acompanhada pela forte chuva de Inverno que caía sem parar, afastando as pessoas das ruas iluminadas por horrorosos enfeites de Natal e pelos faróis dos carros que circulavam na estrada ensopada.
No cimo de um prédio, no terraço, encontrava-se um rapaz a observar aquele cenário monótono, não se preocupando com a chuva.
Estava ali à mais de uma hora esperando alguém. Era alto, bem constituído, pálido, tinha os olhos e o cabelo pretos, sendo este liso. Vestia umas calças e uma sweatshirt pretas, cobertas por um sobretudo de cabedal, o seu favorito.
- Estás atrasada – disse ele sem se virar.
- Desculpa Shade – respondeu uma rapariga, ao pousar no chão molhado do terraço.
Ela era tão peculiar quanto ele. Era mais baixa que Shade, magra, elegante, pálida, com os olhos cor-de-cinza e o seu cabelo era de um azul-acinzentado, lembrando um dia triste de Inverno.
- Não faz mal. O Templo-Mãe informou-te sobre a “missão”? - perguntou ele, já virado para ela - Tu também foste escolhida, mas eu não te quero obrigar a nada. Se tu leste os relatórios que te foram enviados, sabes o risco que corres se a aceitares. Ainda podes desistir, pois o Templo-Mãe dá-te essa escolha. Que me dizes, Alexia?
- É claro que me junto nesta missão. O futuro da raça humana está em jogo e eu quero impedir o que está para vir – respondeu numa voz decidida e sem um pingo de cobardia – Quais são as ordens primárias?
- O habitual. Recolher informação, eliminar qualquer criatura das trevas que encontremos, proteger os habitantes desta cidade e manter total sigilo sobre as nossas actividades.
- Certo!... Shade. - o seu tom de voz diminuiu – Como te sentes em ter voltado a esta cidade? Após seis longos anos de ausência?
- Bem - respondeu Shade secamente, virando as costas a Alexia.
- Desculpa se te fiz recordar...não era minha intenção - explicou ela - Shade...Shade...diz algo...
- Vem cá – pediu Shade rapidamente
- Que...que se passa?
Alexia aproximou-se do parapeito do terraço e viu o que Shade estava a observar. Lá em baixo, a atravessar a estrada, encontrava-se uma rapariga aproximadamente da mesma idade de Shade e Alexia, dezassete anos, sendo seguida por duas sombras fantasmagóricas sem se aperceber do perigo que corria. Shade olhava fixamente para elas como se estivesse hipnotizado.
- Parece que encontrámos uns potenciais informadores! - exclamou ele muito sério.
Alexia olhou para as sombras com cara de enjoada e disse:
- Os vampiros são os seres mais cobardes do mundo. Metem nojo.
Lá em baixo, a rapariga, de nome Aryn falava animadamente ao telemóvel com uma amiga, ignorando o enorme perigo que corria. Atrás dela as sombras esvoaçavam silenciosamente numa dança mórbida, esperando o momento de se revelarem.
- Não sei com quem hei-de ir ao concerto. Tu não queres, o Morris nem pensar! Não me apetece ir sozinha... - desabafou ela, com a sua amiga.
No momento, em que ela ia a virar a esquina para uma rua que estava num completo caos, devido a um acidente entre dois camiões provocado pela chuva, o telemóvel deixou de funcionar e toda aquela enorme confusão desapareceu como por magia, deixando Aryn no meio duma rua deserta, fria e sombria, totalmente irritada com o seu telemóvel, não se dando conta do estranho fenómeno que ali se tinha dado…
Aryn guardou o telemóvel na sua mochila enquanto murmurava insultos a este, ajeitando de seguida o seu guarda-chuva que estava um pouco torto devido ao vento que naquela altura já tinha amainado. Indo prontamente para casa que ficava a dois quarteirões dali.
Só nessa altura reparou no assustador cenário em que a longa rua se havia tornado. Ela acelerou o passo, assustada, abrigando-se por debaixo do guarda-chuva, desejosa por chegar à segurança do seu lar.
Ao percorrer a rua, deu-lhe a impressão de que as sombras desta se moviam, acompanhando-a.
- Dá-nos o teu precioso sangue, humano!!! – sussurrou uma voz fantasmagórica num dialecto estranho, que Aryn não compreendeu mas que lhe causou calafrios.
Ela olhou em redor mas não viu ninguém naquela rua sombria e continuou a sua caminhada acelerada para casa. Uma sombra atravessou-se no seu caminho fazendo com que Aryn soltasse um estrondoso grito que ecoou por toda a rua. Uma das que a seguia, pairou à sua frente como se estivesse a observar na expressão facial de Aryn, um misto de incredulidade, medo, espanto e de estupidez.
Dois olhos vermelhos, muito brilhantes, surgiram no meio da sombra seguidos por uma cara grotesca, pálida e esquelética. Materializando de seguida num corpo magro, coberto por vestes negras e arcaicas, consumindo a sombra até à sua extinção. Aryn estava aterrorizada e só queria fugir para bem longe daquele assustador ser, mas algo muito forte, uma força invisível, prendia-lhe o corpo impossibilitando-a de correr. O estranho homem proferiu algo no mesmo dialecto estranho que Aryn tinha ouvido anteriormente e outro sujeito tão grotesco como este, apareceu por detrás dela proferindo algo como resposta ao seu parceiro. Os dois vampiros rodearam Aryn e lançaram-se em direcção ao seu pescoço, salivando como cães esfomeados. As suas enormes bocas aproximavam-se do pescoço da paralisada presa, prontas a rasgar a carne tenra de Aryn com os seus temíveis caninos e sorver o seu quente e delicioso sangue. Ela sentia o bafo gélido dos vampiros a bater-lhe na pele, arrepiando-a completamente à medida que eles se aproximavam.
Um tiro foi ouvido no momento em que estes iam cravar os seus grandes caninos no pescoço de Aryn, atraindo a sua atenção para o autor do disparo, Shade. Este encontrava-se no cimo de um prédio de três andares, segurando duas enormes pistolas chamadas Silvercross. Ao seu lado, pegando num belíssimo chicote negro encontrava-se Alexia. Os dois vampiros enchendo-se de raiva lançaram duas ondas de choque na direcção aos dois jovens, criadas pelas suas fortíssimas cordas vocais. Estas destruíram uma parte substancial do prédio, não acertando contudo no alvo pretendido. Shade e Alexia escaparam ilesos a esse poderoso ataque saltando no momento preciso e aterrando de seguida na estrada molhada.
- Têm de ser mais rápidos do que isso, se nos querem matar - troçou Alexia, falando na mesma língua dos vampiros.
Os vampiros rugiram furiosos, saltando em direcção aos seus opositores com o intuito de os matar. Alexia esquivou-se rapidamente de um dos vampiros, desferindo segundos depois um profundo golpe nas costas do seu adversário com o seu chicote, a que ela chamava Viper. O ataque foi tão violento que o vampiro caiu no chão inanimado. O outro vampiro também estava com dificuldades em derrotar Shade, pois este tinha sacado uma enorme e belíssima espada de prata benzida. A espada causava medo ao vampiro, pois fora benzida e se ele tocasse nela desfazia-se em cinza.
- Estás com medo, vil criatura? - perguntou Shade , pondo-se numa posição de ataque.
- Eu não tenho medo de nenhum humano nojento como tu! - respondeu, um pouco inseguro.
- Mas devias ter! - afirmou Shade com um pequeno sorriso.
Dito isso, Shade lançou-se em direcção ao seu opositor, segurando a espada ao contrário fazendo com que a lâmina raspasse no passeio atacando segundos depois o vampiro com um golpe vertical.
- Falhaste, idiota! – gozou o vampiro após ter-se esquivado do ataque., saltando de seguida para cima dum candeeiro de rua.
- Penso que não. Olha melhor. - disse Shade apontando para a barriga do seu opositor com a espada.
O vampiro olhou para a zona indicada por Shade e comprovou que este de facto lhe tinha acertado. Do pequeno corte começou a sair fumo e a pele à sua volta começou a escurecer, enquanto a carne queimava dolorosamente.
- NÃO!!! NÃO. MALDITOOOO... SEJAS… - gritava o vampiro à medida que o seu corpo se desfazia - …AHHHHHHHHHHHHH...
O vampiro morrera. Shade ficou uns momentos a olhar para o sítio onde este parecera, dirigindo-se depois para o pé da assustada e confusa Aryn. Ao passar por Alexia, esta perguntou-lhe:
- Posso?
Shade respondeu-lhe que sim acenando a cabeça, não interrompendo a sua marcha em direcção a Aryn. Esta continuava imóvel que nem uma estátua totalmente apavorada, tremendo por todos os lados. Ao chegar ao pé dela, Shade tocou-lhe na testa com a mão direita e uma onda de calor invadiu o corpo da jovem, eliminando completamente a força invisível que lhe prendia os movimentos.
- Estás bem? - perguntou Shade calmamente, tirando-lhe a mão da testa
- Si...sim, estou bem! - respondeu ela um pouco atrapalhada
- Óptimo.
Alexia interrompeu-os chamando Shade para o pé dela e do vampiro caído. Este tinha recuperado a consciência mas encontrava-se amarrado pelo chicote de Alexia, que se mexia como uma serpente.
- Vamos a isto! - Exclamou Shade, guardando a SacredSin na bainha mágica colocada atrás das costas, por debaixo do sobretudo.
- Que me vão fazer, humanos asquerosos? Quando me libertar vou vos arrancar os corações e come-los ainda a pulsarem... - ameaçou o vampiro a espumar de raiva.
-“Nuro videra” - conjurou Alexia em voz alta.
O chicote começou a emitir uma luz dourada e várias outras luzes da mesma cor surgiram em redor do vampiro, esvoaçando rapidamente em seu redor como pirilampos enlouquecidos. Gritos horríveis saiam da boca grotesca do vampiro à medida que as luzes se tornavam mais rápidas, criando belíssimos traços luminosos devido à extrema rapidez com que iam. Aryn encolhia-se por detrás de um contentor de lixo, tapando os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir aqueles gritos ensurdecedores, que lhe causavam dores insuportáveis nos tímpanos. Esforçava-se por pensar que aquilo não passava só de um pesadelo e que a qualquer momento iria acordar na sua cama, em seu quarto, na sua casa, junto das suas queridas irmãs. Mas isso não aconteceu. Em vez disso continuava a ouvir os gritos da criatura que ecoavam pela escuridão da rua, quebrando o silêncio sobrenatural que se fazia ouvir.
-“Nuro videra” - repetiu Alexia, diminuindo o tom vocálico.
As luzes douradas pararam de rodar e reuniram-se diante da boca do vampiro formando uma esfera de luz. Alexia recolheu a Viper com um movimento rápido da mão direita, libertando o vampiro. Mas este não fez nenhum movimento para os atacar ou para fugir. Limitou-se a ficar ali deitado no chão frio e molhado, a olhar fixamente para a esfera de luz.
- O que é o dia do renascimento? - perguntou Alexia, olhando também fixamente para a esfera.
- O ... o ...o dia...em que ele renascerá e levará a raça vampírica à soberania deste mundo. - respondeu ele, hipnotizado mas tentando lutar contra o poder da esfera.
- Ele, quem? - interrogou, Shade, que até aquele momento não tinha dito nada.
- O vampiro-supremo. Filho do Maldito, que foi selado pelo o vosso Deus na Guerra da Criação. O seu renascimento foi profetizado pelo Grande Nosferatus e quando esse momento chegar, a raça humana estará condenada a servir-nos para sempre, pois nenhum mortal poderá vencer o estrondoso poder do futuro Senhor da Terra. Nem mesmo a organização a qual vocês pertencem, portanto fujam desta cidade maldita e escondam-se pois uma nova Era está a chegar e ninguém conseguirá travá-la.
- Dramático, este aqui! - disse Alexia, olhando com desprezo para ele.
- Então era isso que Circe tinha visto nas águas temporais. Uma sombra maligna cobrindo todo o planeta e um anjo negro, governando, ambos céu e terra...o dia do renascimento. - disse Shade, pensando alto.
- Estás enganado. - interrompeu o vampiro - Isso que acabaste de dizer, não é o dia do renascimento. Isso vem depois, quando ele andar por esta terra. O dia tornar-se-á noite, o sangue humano cobrirá o chão e a Raça Negra governará a Terra e o Céu, comandados pelo seu Senhor... Assim será o Apocalipse.
- O Apocalipse! - exclamou Alexia, sentindo um arrepio na espinha.
Shade aproximou-se do vampiro e sussurrando ao seu ouvido, perguntou:
- Quando é que ele renascerá?
- Em breve...
- QUANDO?!!! – perguntou novamente, exaltado com a resposta pouco esclarecedora do vampiro.
- “Os seis deuses reunidos no santuário, quando a estrela de Dimitrius aparecer, brilhando altiva no céu, libertará a essência selada, a semente do mal. Na cidade dos nossos antepassados, na cidade das sombras...”
- A parte perdida da profecia! – disse Alexia espantada.
- Que queres dizer, com os seis deuses e com o santuário? RESPONDE!!! – gritou ele, abanando o vampiro, que lutava contra o poder da esfera com todas as suas forças
- Podem ter me feito falar, mas não irão arrancar mais nada de mim. – replicou o vampiro, com um enorme sorriso desenhado no rosto pálido e frio, proferindo depois – “Ert’varadum”.
O corpo do vampiro começou a emitir uma luz vermelha, enquanto inchava pouco a pouco.
- Raios!!! - exclamou Alexia, olhando para o corpo do vampiro, que inchava que nem um balão.
- CORRE. DEPRESSA! - gritou Shade, começando a correr na direcção de um camião, que se encontrava estacionado a escassos metros do vampiro.
Alexia seguiu-o após ter recolhido a esfera de luz, que registou as palavras do vampiro ao mesmo tempo que o obrigara a falar. Shade colocou-se atrás do camião juntamente com Alexia, gritando de seguida para Aryn:
- NÃO SAÍAS DAÍ, OUVISTE-ME?
Aryn acenou afirmativamente e encolheu-se mais por detrás do contentor do lixo totalmente aterrorizado.
O vampiro tinha inchado até ao máximo e estava prestes a rebentar. Luzes vermelhas perfuraram a carne deste, saindo do seu interior como lâminas afiadas caindo sobre a forma de pequenos cometas que causaram insignificantes crateras.
- Eu conheço-te Shade, tal como o meu Mestre. Tu pensas que o mataste, mas isso não aconteceu. Ele está aqui nesta cidade para te destruir. Portanto teme-o, pois ele está mais forte do que da última vez...teme-o, pois ele acabará por te matar. Ah, Ah, Ah, Ah, Ah...
As palavras do vampiro ecoaram por toda a rua e pela mente de Shade, acompanhadas pelo estrondo do seu corpo a explodir em mil bocados, causando uma enorme onda de choque, que quase projectou Aryn contra um poste, partilhando o risco de ser esmagada pelo mesmo contentor que lhe servira de escudo, se Alexia não a tivesse salvo com o seu chicote, trazendo-a para o pé deles.
- Ele não podia estar a falar do....do Hexos! - exclamou Shade depois da onda de choque ter passado, recordando a sua luta contra um poderoso vampiro na Roménia há dois anos atrás - Eu trespassei-o com a minha espada. Era impossível que ele tenha sobrevivido!
Alexia ajudou Aryn a levantar-se e fez com que ela prometesse que nunca iria contar a ninguém o que tinha visto e ouvido naquela noite.
- Prometo. A minha boca é um túmulo. - confirmou ela, começando a recuperar do choque inicial, mas ainda um pouco abalada.
- Espero que seja verdade! - avisou Shade aproximando-se delas, limpando a manga esquerda do sobretudo que tinha ficado suja de cinza durante a luta - Se um vampiro te ouvir falar sobre o que aconteceu aqui, pode-te muito bem usar para obter alguma informação sobre nós, embora tu não saibas muita coisa a nosso respeito, mas mesmo assim todo o cuidado é pouco nos tempos que correm.
- Podem ficar descansados. Eu não falarei a ninguém sobre o que presenciei. - disse, tentando processar tudo o que tinha visto naquele momento. A sombra voadora, os vampiros, os dois misteriosos que vieram em seu auxílio e a explosão de um dos grotescos seres e acrescentou : - Muito obrigado. Se não fossem vocês, a esta hora estaria a servir de alimento aquelas duas sanguessugas nojentas.
- Não tens de quê. Tenta evitar andar sozinha à noite pela cidade, Okay.? - aconselhou Shade, virando de seguida as costas a Aryn seguido por Alexia, que se despediu dela com um curto acenar da mão direita.
Aryn ficou uns instantes a observar os dois jovens a afastarem-se. A fissura na realidade feita pelos vampiros, uma técnica usada para isolar as suas presas desintegrou-se, fazendo desaparecer os dois misteriosos jovens e trazendo a confusão de há bocado, agravada agora pelos destroços do prédio destruído pelos demoníacos seres, causando espanto, indignação e pânico por parte dos seus inquilinos. que viram a sua casa misteriosamente danificada.
A chuva tinha parado tal como o frio e o medo que rodeava o coração de Aryn. Esta agora só queria chegar a casa, abraçar as suas queridas irmãs e esquecer aquele terrível evento, desconhecendo por completo o que o destino lhe reservará para o futuro. Algo que lhe mudará a vida para sempre...